09/08/2020

O QUE TODOS DEVERIAM SABER SOBRE O KRAV MAGÁ (E TALVEZ SOBRE A VIDA).

O QUE TODOS DEVERIAM SABER SOBRE O KRAV MAGÁ (E TALVEZ SOBRE A VIDA).

Ensinar Defesa Pessoal e principalmente Krav Magá, não é algo simples. Essa tarefa, além de se diferenciar muito do ensinamento tradicional de artes marciais, tem pontos e detalhes bastante específicos, que muitos ainda não compreendem (tanto alunos quanto instrutores) ou não são capazes de executar, seja por falta de oportunidades, de conhecimento, medo e insegurança, ego ou até mesmo, por incompetência.

Em uma sociedade onde o crime e a violência estão cada vez mais presentes e em elevado crescimento, não é surpresa que as pessoas busquem aulas de Krav Magá para poder se prevenir ou se defender de possíveis agressões. Alguns instrutores de diversas modalidades e escolas, acreditam que todo conteúdo passado em suas aulas é sempre absorvido por completo pelos seus alunos, e eles estarão prontos para utilizar aquelas mesmas técnicas em qualquer momento de necessidade e elas sempre irão funcionar, ignorando assim, pontos importantíssimos e criando uma outra realidade, que pode ser ainda mais assustadora do que a própria realidade das ruas, criando um falso senso de segurança.

De acordo com Rory Miller, autor de “Meditations on Violence: A Comparison of Martial Arts Training and Real World Violence” dentre muitos outros dentro deste mesmo tema, aprender Krav Magá é diferente de qualquer atividade das quais estudamos ou treinamos durante a vida. Diferentemente do que acontece no dia a dia em nossos trabalhos, quando trabalhamos com engenharia por exemplo, ou de um treino de xadrez ou boxe, ou qualquer outra modalidade esportiva, não temos como prever ou saber qual é o problema com o qual iremos nos deparar quando uma situação real de agressão acontecer. O engenheiro sabe exatamente quais problemas podem acontecer na hora que está construindo uma ponte ou um túnel. O esportista sabe exatamente como e quando terá que enfrentar seu adversário, e com um pouco de estudo, seus pontos fracos, fortes, seus objetivos, etc. Mas ninguém é capaz de saber quando será agredido, e como isso vai acontecer. Você não sabe se um dia precisará se proteger de uma tentativa de estupro ou sequestro, um ataque terrorista com faca, um assalto, ou se uma discussão no bar vai se desenvolver para algo mais grave e chegar até você, que estava ali só de passagem e não tinha nenhuma relação com o fato.

Muitas escolas que dizem ensinar Krav Magá falham no sentido de transmitir para seus alunos informações e técnicas usando um ponto de vista estritamente conceitual, técnico, e muitas vezes, único, para os alunos, demandando que estes executem os movimentos ou técnicas de forma similar ao que seu instrutor o faz, imitando, sem entender tudo que está por trás daquele movimento ou da situação onde ele se enquadra, e todas as possíveis variáveis.

O Krav Magá é uma técnica de defesa pessoal, e deve ser tratada sempre desta forma. A realidade, com a qual nos deparamos todos os dias, é um “sistema aberto”, com muitas maneiras de estar certo, e muitas outras maneiras mais de estar errado. Quando nos deparamos com escolas de artes marciais e suas formas tradicionais de ensino, estamos falando de um sistema fechado, e que está sendo executado da mesma forma por muitas gerações, onde o instrutor tem a obrigação de ensinar ao aluno algumas técnicas de uma forma específica. Neste tipo de sistema, você ensina usando como foco o “tema” e o que é correto ou aceito para aquele assunto específico.

Para ensinar defesa pessoal ou especificamente Krav Magá, o foco deve ser diferente. O foco deve estar no aluno. Cada pessoa é diferente da outra. São indivíduos diferentes, com corpos diferentes, experiências de vida diferente, formas de pensar diferentes. São pessoas que irão enfrentar diferentes tipos de violência e de crimes na rua. Cada aluno possui características diferentes e recursos diferentes. Eles possuem limites diferentes. Quando o foco de ensino está no aluno, não basta conhecer o currículo. É preciso conhecer as excessões, as falhas, as situações que estão fora deste currículo, e principalmente, como adaptar esse currículo para alunos diferentes, física e mentalmente.

E como deve ser uma aula de Krav Magá, onde o instrutor é capaz de ensinar as mesmas coisas para pessoas tão diferentes de forma a não desperdiçar o tempo dessas pessoas e o dele próprio? Segundo Eyal Yanilov, no livro “Principles-Based Instruction for Self-Defense (and maybe life)” escrito e publicado por Rory Miller, para você aprender, se desenvolver mais e melhorar, você precisa interagir com pessoas que tenham mais conhecimentos do que você, e até conhecimentos diferentes, que tenham diferentes níveis e graduações. E se você não pode ter o contato pessoal com esses diferentes professores de diversos países e locais, você deve ler muito, estudar e entender como outros profissionais trabalham.

Ou seja, é de extrema importância que seu instrutor e sua escola entendam a realidade, conheçam o currículo e todas as possíveis variáveis envolvidas no processo, e saibam explicar o conceito por trás dos movimentos e a realidade por trás das técnicas. Isso só é possível com experiência. Experiência que só será adquirida com muito estudo, muita troca de informações, com treino e contato com professores e escolas de diferentes lugares do mundo, com pessoas mais graduadas e que tenham outras vivências além da sua. O ego e a arrogância devem ser colocados de lado. O instrutor deve ser humilde para aprender com todos, e entender o papel dele dentro do tatame.

Todo mundo é melhor que todo mundo em alguma coisa. Ninguém é especial. Sempre existirão pessoas que executarão alguma tarefa melhor que outras. Não existe uma verdade única, ou uma forma única de se fazer alguma coisa. Toda verdade, dependendo das circunstâncias, deixa de ser verdade. Qualquer uma. A física Newtoniana, por exemplo, é capaz de explicar qualquer coisa, a não ser que se esta coisa seja muito grande. Ou muito pequena. Ou muito rápida. E aí precisaremos usar a ciência de Einstein para nos ajudar. Porém, Einstein também não é perfeito, e sua teoria da relatividade também não funciona se as coisas forem muito pequenas. A ciência nunca encontrou um lugar onde nada muda, ou onde as circunstâncias não afetem de alguma forma os resultados. Seja cuidadoso. Dentro do mundo das artes marciais e dos instrutores de defesa pessoal existe um número grande de desinformação, como resultado de pessoas bem intencionadas com limitações ou informações incompletas, executadas por um único ponto de vista, que ao invés de ensinar coisas ou técnicas que eles sabem de verdade que funcionam (por experiência própria, estudo ou troca com outras pessoas que sabem), acabam ensinando coisas que eles acreditam que possam funcionar, pois só tiveram contato com uma única fonte de informação, tem pouquíssimo estudo literário (por deficiências linguísticas ou financeiras) e quase nenhuma troca com outras pessoas da mesma área por conta do ego inflado e arrogância.

Para Kelly Muir (praticante de artes marciais e instrutora com mais de 30 anos de experiência, indicada em 2012 ao “Black Belt Hall of Fame” na categoria “Mulher do Ano”), instrutores e escolas precisam ser profissionais, organizados, humildes, estudiosos e principalmente, pacientes. Experiência se ganha com treino, com troca de experiências e com estudo, e isso leva tempo. Estudar defesa pessoal é estudar a realidade. Muitos podem dizer que “sabem” muitas coisas, e têm bastante confiança sobre elas. Infelizmente, muitas dessas coisas não são verdades. Elas não são reais, ou não foram vistas ou testadas sob todos os pontos de vista. Sempre procure pelas origens da informação. Compare com a de outras fontes. Veja se faz sentido, sob outras circunstâncias. Seja cético (inclusive em relação a mim e a este texto).

Bibliografia:

Dr. Mor, Guy. Moriya, Abi. Krav-Maga: Teaching with Doubt!: The complete toolkit for martial arts instructors. Amazon Ebook – Print Replica 2020

Miller, Rory. Yanilov, Eyal (Foreword). Principles-Based Instruction for Self-Defense (and Maybe Life). CreateSpace Independent Publishing Platform. 2017

Miller, Rory. Meditations on Violence: A Comparison of Martial Arts Training and Real World Violence. YMAA Publication Center. 2008

Morell, Romain. THE KRAV MAGA INSTRUCTOR’S BOOK: How to teach a self-defense method and a close-combat system. Amazon Ebook – Print Replica 2018

Miller, Rory. The Practical Problem of Teaching Self-Defense. https://ymaa.com/articles/2015/1/the-practical-problem-of-teaching-self-defense 2015

Muir, Kelly. The Art of Teaching Women’s Self-Defense: Less Is Best. https://blackbeltmag.com/the-art-of-teaching-womens-self-defense-less-is-best 2014